Como ser mais paulistano

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23 nov , 2015  

Quando eu era criança, diziam que programa de paulistano era ver avião decolar em Congonhas. Não sei se isso foi verdade quando o aeroporto, que tem um enorme deck de observação no segundo andar, foi inaugurado em 1936. Mas eu, que sou paulistaníssima, nunca conheci ninguém que curtisse esse rolê (nossa gíria para “passeio” ou “atividade”).

Brincadeiras à parte, a real é que São Paulo é nossa first city. O Rio e sua beleza que me desculpe. E não estou falando de economia, não. Estou falando de atividade cultural mesmo. São Paulo é, para o Brasil, o que Londres é para a Inglaterra e o que Nova York é para os Estados Unidos.

Em São Paulo, vivemos tempos cheios de energia. É só abrir o jornal: manifestações, implementação de ciclovias, a volta do movimento estudantil. Nem tudo são pérolas (e onde é?), mas o espírito do paulistano criativo e enérgico esteve a todo vapor em 2015.

A cena musical, por exemplo: há apresentações de bandas de todos os tamanhos a cada fim de semana. Show de jazz de graça nas ruas da Vila Madalena? Tem. Megaeventos tipo Lollapalooza? Tem também. Mas é pelo caminho do meio que a coisa fica interessante, com um circuito de casas de show como a Audio e o Cine Jóia. Nesse, uma vez por mês, um projeto de clássicos do cinema com trilha-sonora ao vivo chamado Cinesthesia é uma das coisas interessantes rolando na cidade hoje.

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Esse espírito independente característico da cidade também transforma um dos gostos preferidos de todo brasileiro com mais de 18 anos: cervejas. Cervejas especiais feitas em pequena escala com cuidado de artesão tomaram conta da cidade. Alguns lugares tradicionais como o famoso Frangó, no bairro da Freguesia do Ó, captaram a mensagem e oferecem cervejas locais na sua extensa carta. E o bem-sucedido Sagarana, já com três endereços (dois na Vila Madalena), tem orgulho em oferecer marcas locais entre as belgas e alemãs preferidas dos cervejeiros.

Um dos meus programas preferidos em São Paulo é entrar em livrarias. Desde sebos tradicionais como os do centro velho da cidade até novos como o tranquilo Desculpe a Poeira, que ocupa a garagem de um prédio antigo em Pinheiros. A Livraria da Vila, com sua arquitetura especial na Alameda Lorena, é considerada uma das livrarias mais bonitas do mundo. Mas quem tem espaço cativo no meu coração (e no das mais de 200.000 pessoas que vivem na Avenida Paulista) é a Livraria Cultura, com três andares, acervo em diversas línguas, farta oferta de livros de interesse específico e, de quebra, um dragão gigante pairando sobre a ala infantil.

LivrariaCultura

E os cinemas, que aos poucos vão saindo dos shoppings e retornando à rua, que é seu lugar. O CineSesc, na Augusta, é peça de resistência do circuito alternativo e tem um bar envidraçado que permite beber cerveja e conversar vendo o filme sem atrapalhar a exibição. O bonito Belas Artes, na Rua da Consolação, desde os anos 1960, reabriu depois de abaixo-assinados e pressão pública. E a pequena e heróica CineSala, em Pinheiros, com uma única tela, carrega a moral de ser a sala mais confortável da cidade.

Há ainda museus, mais de 50. Um deles, o MASP, tem o maior acervo de arte europeia do hemisfério sul. A maior coleção brasiliana (de itens relacionados à história do país) também está em São Paulo: em plena Avenida Paulista, a coleção Brasiliana Itaú fica aberta todos os dias e tem visitação gratuita! Veja aqui outras dicas de museus.

Essas coisas são parte da minha São Paulo. Moro no centro expandido, perto de uma estação de metrô. Faço tudo a pé e usando transporte público. Sei que a minha versão da cidade é diferente da de qualquer outro paulistano – essa é a graça de viver em uma cidade de onze milhões de habitantes, em que nenhum dia é igual ao outro.

O mito de cidade cinzenta, sisuda e chata ficou para trás. Pode vir na fé. Com tanta coisa para fazer, você nem vai sentir falta de praia.

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Gaía Passarelli, 38, é reporter e durante 14 anos comandou o site rraurl.com, primeiro a cobrir música eletrônica no Brasil. Com passagens como apresentadora e reporter na MTV Brasil e editora na MatadorNetwork, atualmente escreve sobre viagens como freelancer e no blog próprio [http://gaiapassarelli.com].

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